A QUALIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL:
PONTOS E CONTRAPONTOS DA PRÁTICA

____Apresento alguns recortes de minha pesquisa de mestrado “Perfil, Prática Educativa e Formação em Serviço dos Professores da Educação Infantil: o “caso” dos Centros de Educação Infantil – CEIs Conveniados de Curitiba” defendida em julho de 2010 – com a banca de Ademir Valdir dos Santos; Silvia Helena Vieira Cruz e Maria Antonia Souza – UTP. Nutro ideais de ver acontecer, nas instituições de Educação Infantil, a prática educativa pautada na Pedagogia da Infância, em que se conceba a criança, como sujeito de direito, garantindo assim a qualidade de atendimento.

____No emaranhado do “fazer” da prática educativa, as investigações empíricas do professor Peters da Universidade do Delaware (USA), nos ajudam a entender as limitações da pesquisa no campo da metodologia quando se deseja fundamentar as ações pedagógicas desenvolvidas em sala, ou seja, “o fazer” com “as questões teóricas, práticas e políticas” da prática educativa com as crianças pequenas.

____Peters (2002) enumera a investigação desenvolvida por Sears e Dowley quanto à prática educativa em um jardim de infância na década de 60, apresentando algumas dificuldades do ensino nos contextos da Educação Infantil. Esses pesquisadores apresentam alguns indicativos que estão ligados à “falta de uma teoria sobre o processo de ensino”, à “relutância dos investigadores em repetirem” (mesmo que modificadas as investigações de outros pesquisadores) e a dificuldade de “se separar o método do contexto social definido pelas características dos profissionais e crianças envolvidas no mesmo contexto” como entraves do ensino nos contextos da Educação Infantil.

____Essas questões levantadas por Peters, de algum modo se equiparam com a realidade brasileira diante dos debates que se travam para se discutir o “ensino” na Educação Infantil. Alguns indicativos mostram as teorizações e a falta do reconhecimento da diversidade; a proposta de uniformidade de ensino para um país heterogêneo e o não reconhecimento de que profissionais e crianças vindos de contextos históricos, sociais e culturais diversos possuem características específicas. Não defendemos teorizações diversas para atender realidades diversas, mas sim, um entendimento de que, dependendo do meio em que profissionais e crianças estão inseridos, desenvolvem sua prática educativa e necessitam de mais ou menos intervenção daquele órgão que oferece formação em serviço.

____É de se lamentar a pouca investigação nesse meio que se diferencia pela especificidade de público-alvo a ser atendido e, pela formação do professor que atua como meio de se alcançar resultados mais seguros.

____Sabe-se que as questões de atendimento das Instituições, foco de minha pesquisa não constituem uma situação particular do município, tanto que não tive a intenção de expor ou criticar o que é oferecido pelo órgão público aos conveniados, mas sim, discutir elementos que possam contribuir para políticas públicas de atendimento da criança na Educação Infantil.

____Muitos são os mochileiros que, em movimentos articulados, se juntam, se organizam e vencem os obstáculos com coragem, na luta pelo direito da criança, para que ela tenha um lugar de atendimento com qualidade. Faço referência ao “mochileiro” para falar daqueles que “borbulham” e tecem redes, que dialogam e partilham ideais e ideias, debatem, resistem e avançam, tal qual agulhas de um tear que em movimentos da academia, de redes e interfóruns se posicionam, constituindo-se em uma trama que a criança e a infância ocupam o lugar central. Mochileiros que buscam o lugar social do professor da Educação Infantil, da criança e da infância nas políticas públicas. Lugar de direito da criança e da infância de ser, sentir, viver e aprender, condicionado por sua situação histórica, cultural e social.

____Porém, para que se enxergue a competência da criança é imprescindível à superação da dimensão social, cultural e política intrínseca nas relações de poder entre adultos e crianças que interferem e regulamentam as falas e as ações das crianças, deixando-as em posição de desigualdade e de não participação e atuação na vida social, cultural e política.

____E, nesse linear, vários são os documentos que norteiam o atendimento da Educação Infantil, mas chamo atenção para o documento, Indicadores de Qualidade da Educação Infantil (BRASIL), são apresentados conceitos amplos que abarcam vários aspectos que vão desde a constituição física da instituição até as relações estabelecidas entre familiares, crianças e instituições. Nele se propõe de forma sistemática, sete dimensões de qualidade para análise que vai desde o planejamento institucional, multiplicidade de experiências e linguagens (formas de a criança conhecer e experimentar o mundo e se expressar); interações (espaço coletivo de convivência e respeito); promoção da saúde; qualidade e condições dos espaços, materiais e mobiliários; formação e condições de trabalho das professoras e demais profissionais; cooperação e troca com as famílias e participação na rede de proteção social.

____Temos, portanto, legislação, produções e muitos debates na área e sentimos ter avançado pouco a qualidade da Educação Infantil, quem sabe se tenha que redimensionar e ampliar o campo das pesquisas, para que de forma continua e sistemática, se desenvolva no lócus da prática educativa, no fazer do professor, como possibilidade de atender e entender os processos e as ações desenvolvidas na prática educativa de um país tão diverso e de diversidades.

____Quem sabe possamos se empenhar mais em pesquisas contínuas e partilhadas, pois entendo, que as investigações sistemáticas e contínuas, elaboradas e repetidas por olhares diversos, em tempos diversos, no mesmo lócus da prática educativa, ainda estão por vir e podem ser um aliado nessa busca de como desenvolver práticas educativas que respeitem as crianças..

Elisabet Ristow
Mestre em Educação, pesquisadora,consultora e assessora pedagógica
elisabet@pantakulo.com.br